domingo, 9 de novembro de 2014

Trabalho, devir e a dimensão ontológica do ser social

Reflexão desenvolvida a partir da leitura do artigo "Trabalho, ciência e cultura como princípio e fundamento da educação profissional", de Antônio Henrique Pinto, em diálogo com o curta-metragem "O Brilho dos Meus Olhos", de Allan Ribeiro, em atividade da especialização em PROEJA do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo.


Quando nos propomos a pensar a dimensão educativa do trabalho voltada para a perspectiva crítica e reflexiva da Educação para o trabalho e ambos para a vida, nos deparamos com reflexões a respeito da natureza do ser humano e o que o constitui "ser" e "humano". O estudo da Ontologia, que seria o campo da Filosofia voltado para a compreensão do "ser em si mesmo", como nos informa o "web-dicionário" Dicio: Dicionário online de português, em diversos momentos da História da Filosofia Ocidental dialoga com o universo do trabalho. Em seu estudo sobre a obra "Para uma ontologia do ser social", do filósofo húngaro Georg Lukács, Maria Inês Semeghini observa que, embora a relação homem-trabalho estivesse presente já em Aristóteles, "[...] foi Hegel quem primeiro percebeu a importância desta atividade essencialmente humana, quando concebe o homem como resultado de seu trabalho [...]" (2000, p.24). No entanto, Semeghini observa na obra de Lukács que o trabalho só assume papel fundamental na concepção ontológica do ser humano enquanto ser material e em um mundo objetivamente percebido por sua materialidade em Marx. Partindo dessa perspectiva "o trabalho será, então, a pista que permite reconhecê-lo [ao ser humano] em sua relação 'crítico-prática' como ser capaz de intervir no mundo" (idem, p.27).

No texto-referência, observamos que Pinto relaciona o princípio ontológico do trabalho à sua depressão com a alienação do processo produtivo sofrido pelos trabalhadores e trabalhadoras no estabelecimento das relações produtivas no capitalismo industrial, conforme citação: "Historiador que investiga as relações do trabalho no capitalismo, Mészaros coloca em evidência a lógica do capital: desapropriar do homem aquilo que constitui a essencia de sua humanidade: a relação com a natureza mediada pelo trabalho." (PINTO, 2011, p.53). Aqui podemos estabelecer o primeiro ponto de diálogo entre o texto-referencia e o curta "O Brilho dos Meus Olhos".

No filme de Allan Ribeiro, temos a representação do desânimo e do enfado da cotidianidade do personagem, interpretado por Marcelo Dias, que exerce a atividade de pedreiro em uma construção civil, na qual, é encarregado por desenvolver a mesma função e em cuja obra, outros pedreiros também funções específicas. O desânimo expresso pelo olhar do personagem é expresso também pela imagem em preto e branco que o retrata na tela e dá a tônica da sequência final. A condição do jovem trabalhador apresenta não apenas a relação fragmentada com o todo do objeto no qual aplica sua força laboral em uma relação de "alienação do processo produtivo", como também revela a "desumanização" da condição de trabalho no sistema capitalista, que distancia o ser humano, trabalhador, da sua condição ontológica de "ser capaz de intervir no mundo" e modificar a natureza mediado pelo trabalho. Tal relação ainda é melhor definida pelos planos-sequências de deslocamento do pedreiro no metrô, que indicam a distância do objeto em que está trabalhando do seu lugar de moradia, em uma periferia urbana. O não usufruto do resultado de seu trabalho - que também foi expresso na música brasileira pelo compositor Zé Geraldo na canção "Cidadão" - constitui outra forma de desumanização e alienação do trabalho.

O segundo aspecto que podemos destacar em diálogo entre o artigo de Pinto e o filme de Ribeiro passa pela concepção Marxista do trabalho como resultado de consciência e intencionalidade, como motivador do desenvolvimento cultural e de instrumentos, técnicas e relações com a natureza e de alterações na mesma. Tal concepção, que orienta o conceito freiriano de "vocação ontológica do ser humano" e constitui princípio norteador da Educação Profissional integrada à Educação Básica na modalidade Jovens e Adultos, revela o abismo existente entre a relação de trabalho vivenciada pelo personagem de Marcelo Dias em "O Brilho dos Meus Olhos" e a sua subjetividade, expressa no filme por seu potencial artístico e sensibilidade musical. Tal distanciamento faz com que o "cantor-pedreiro" só ganhe espaço quando ele "se entrega sangrando", como na canção de Gonzaguinha, em frente ao videokê. Sem elementos suficientes para a transformação de sua realidade social pelo devir proporcionado por seu trabalho de pedreiro, resta sonhar colorido em um mundo em preto e branco.




REFERÊNCIAS

BRILHO dos Meus Olhos, O. Filme (curta-metragem). Direção: Allan Ribeiro. Produção: Ana Alice de Morais e Raquel Rocha. Rio de Janeiro: UFF - Departamento de Cinema e Video, 2006. Disponível em: . Acesso em: 08/nov/2014

ONTOLOGIA. In: SANTOS, Débora Ribeiro et al. "Dicio": Dicionário online de português. Disponível em: . Acesso em: 08/nov/2014.

PINTO, Henrique A. Trabalho, ciência e cultura como princípio e fundamento da educação profissional. In: COSME, Gerliane M. "Repensando o PROEJA": concepções para a formação de educadores. Vitória: Ifes, 2011, p. 49-66.

SEMEGHINI, Maria Inês C. "Trabalho e Totalidade na Ontologia do Ser Social de György Lukács".Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2000.

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