segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Cultura popular: apontamentos conceituais para a abordagem cultural no ensino de História

Ensaio acadêmico produzido no contexto da disciplina "História da Cultura" oferecido pelo Prof. Dr. Ailton Pereira Morila ao Programa de Pós Graduação em Ensino na Educação Básica do Centro Universitário Norte do Espírito Santo da Universidade Federal do Espírito Santo. As referências carecem de revisão para se adequarem à normalização estabelecida pela ABNT.

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RESUMO

Inserido na pesquisa sobre o ensino de história na educação básica no Brasil e nos questionamentos teóricos e conceituais levantados na última década, a partir da atenção dada aos conteúdos de história e culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas no ensino regular, traz um esboço dos quadros conceituais historiográficos e antropológicos oriundos da história cultural e dos estudos culturais já consolidados no campo acadêmico, no que diz respeito aos conceitos de cultura e às abordagens historiográficas sobre as culturas populares.

Palavras-chave: políticas culturais; culturas populares; história cultural.


1 INTRODUÇÃO

A obrigatoriedade do ensino de história e culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas a partir da aprovação da Lei 10.639/2003 e, posteriormente, da Lei 11.645/2008 que alteraram a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei 9.394/1996), constitui um marco nas políticas públicas para a promoção da igualdade racial e da educação para as relações etnicorraciais no Brasil. Resultante da longa atuação dos movimentos sociais organizados em torno das questões etnicorraciais, dos direitos dos povos tradicionais e originários e dos direitos humanos, as leis acima referidas vêm recebendo o aporte de diversos pareceres do Conselho Nacional de Educação e diretrizes do Ministério da Educação com vistas também à construção da educação escolar quilombola e da educação escolar indígena.

Tais ações dos poderes públicos visam não apenas uma equalização do discurso curricular frente aos diversos sujeitos históricos que compõe o que se entende por sociedade brasileira, mas também questionam valores e práticas oriundas do processo de constituição da educação básica no Brasil e há muitas décadas arraigadas no cotidiano escolar e social. Frente a essa realidade emergem questões que se referem às diferentes formas de organização social, econômica, produção e reprodução cultural, identitária e educacional, além das mudanças paradigmáticas e epistemológicas que desafiam a disciplina escolar de História e o trabalho dos profissionais educadores, pesquisadores, discentes e demais sujeitos participantes e responsáveis por sua construção e efetivação social para a necessidade de “[...] construir novas formas de abordagem, assim como de rever posturas e posicionamentos socialmente arraigados [...]”. (SANTOS, 2013, p. 61).

Na proposta por esse reposicionamento da percepção dos sujeitos e temporalidades na história ensinada, mantém-se a atualidade da crítica realizada por Bittencourt ao “[...] ensino de História que se fundamenta na construção de um tempo histórico homogêneo, determinado pelo eurocentrismo e sua lógica de periodização baseada no sujeito histórico Estado-nação [...]” (1997, p. 23) e abre-se espaço para a percepção histórica intercultural no ensino básico, tendo a interculturalidade como “[...] algo inserido numa configuração conceitual que propõe um giro epistêmico capaz de produzir novos conhecimentos e outra compreensão simbólica do mundo, sem perder de vista a colonialidade do poder, do saber e do ser [...]”, como expresso por Oliveira e Candau (2010, p. 27).

Buscando maior inserção nas perspectivas teóricas que orientam debates e pesquisas sobre a abordagem histórica cultural e no ensino de história das culturas, trabalharemos neste texto com algumas referências já consolidadas no campo acadêmico, com foco, sobretudo, nos autores da corrente denominada nova história cultural, em diálogo com algumas referências dos estudos culturais. Pretendemos assim ter maior clareza dos conceitos de cultura e termos como popular, comum e subalterno, comumente utilizados por esta historiografia para identificar grupos sociais não hegemônicos. Após uma rápida contextualização em torno da retomada da história cultural pós década de 1960, tentaremos desenvolver um quadro conceitual a partir de obras de quatro historiadores: Carlo Ginzburg, Peter Burke, Robert Darnton e Edward Palmer Thompson. Observaremos alguns apontamentos e opções conceituais desses autores em relação à abordagem cultural nas pesquisas históricas. Por fim, abordaremos o pensamento do antropólogo Nestor Garcia Canclini a respeito das culturas populares no contexto das relações de poder percebidas nas sociedades capitalistas globalizadas.

Orientando-nos para um caráter mais formativo e inquiridor frente às realidades que condicionam a capacitação e atuação de educadoras e educadores, objetivamos com este breve trabalho seguir em uma postura de atuação crítica diante da proposta de constante construção da educação básica em sua atualidade política, social e cultural, considerando, como proposto por Sevcenko,

[...] valores de longa duração como participação democrática nas discussões e decisões que dizem respeito a todos, distribuição equitativa dos recursos e oportunidades gerados pelas transformações tecnológicas, luta contra todas as formas de injustiça, violência e discriminação, e preservação dos recursos naturais. Esses são os critérios para que se possa julgar criticamente o presente, com sentido histórico e senso de responsabilidade em relação ao futuro [...] (2004 , p. 20).



2 A HISTÓRIA CULTURAL E A “VIRADA” PÓS DÉCADA DE SESSENTA

Peter Burke, em seu trabalho O que é história cultural? , apresenta um rico panorama da abordagem cultural na produção historiográfica, as principais referências teóricas e metodológicas em cada período, além das influências trazidas dos estudos folclóricos e dos debates travados com os estudos culturais contemporâneos, influenciados, sobretudo, pela antropologia e pelos estudos lingüísticos. Para além de uma genealogia da história cultural, o historiador britânico aponta problemáticas às abordagens da história cultural em suas diversas correntes teóricas, assim como elogia os avanços metodológicos nos estudos históricos graças aos debates promovidos entre historiadores culturais. No entanto, uma consideração de grande pertinência é apresentada na conclusão do volume que nos servirá como orientação inicial:

No entanto, não defendi aqui – e, na verdade, não acredito – que a história cultural seja a melhor forma de história. É simplesmente uma parte necessária do empreendimento histórico coletivo. Como suas vizinhas – história econômica, política, intelectual, social e assim por diante – essa abordagem ao passado dá uma contribuição indispensável à nossa visão da história como um todo, “história total”, como dizem os franceses. (BURKE, 2005, p. 163).

Longe de refazer a história da história cultural, como feito por Burke, nos deteremos brevemente na retomada do tema “cultura” pela historiografia ocidental na década de 1960, após certo predomínio das análises políticas e econômicas no período que sucede à Segunda Guerra Mundial, e a sua perceptível ascensão como opção de abordagem a partir da década de 1970 com o movimento que o autor chama de “virada cultural”. Movimento este, menos caracterizado enquanto formação de um grupo coeso que pelo vertiginoso aumento das pesquisas e publicações de historiadores culturais, sobretudo na Inglaterra e Estados Unidos.Como apontado pelo autor, na França houve um relativo abandono da abordagem cultural até mais recentemente em detrimento de outras categorias afins, como “civilisation, mentalités collectives e imaginaire social”, amplamente trabalhadas e amadurecidas durante mais de três gerações de historiadores em torno da revista Annales (ibidem, p. 11).

A chamada “retomada da década de 1960” da história cultural é apresentada por Burke como marcada pela publicação de História Social do Jazz , de autoria do historiador Eric Hobsbawm, mas publicado em 1959 sob o pseudônimo de Francis Newton, e com a publicação de A formação da classe operária inglesa em 1963, da autoria de Edward Palmer Thompson, ambos autores marxistas e, em algum momento de suas trajetórias, militantes do Partido Comunista da Grã-Bretanha. Também neste momento há o surgimento do Centro de Estudos Culturais Contemporâneos, na Universidade de Birmingham, organizado e dirigido pelo teórico e sociólogo jamaicano-britânico Stuart Hall. Além do modelo de referência do Centro de Estudos Culturais, Burke (2005) propõe outras motivações à aproximação desses intelectuais marxistas em torno da abordagem cultural, como uma reação às limitações das abordagens culturais anteriores, estas excludentes e restritas às classes dominantes e à cultura oficial, além de estarem também reagindo às limitações das abordagens político-econômicas, que excluíam o elemento cultural, posto pelo marxismo ortodoxo como de menor relevância por estar localizado na superestrutura (ibid., p. 29 et seq.).

Tendo os estudos sobre identidade cultural na modernidade tardia, identidade cultural negra e de grupos em diáspora no “pós-colonialismo” como tema central em diversas de suas obras, Hall (2006) observa a influência de quatro marcos teóricos que alteram a noção do “sujeito moderno” e da “identidade cultural essencializada”, realizando aquilo que ele chama de “descentramento do sujeito”. O primeiro seria o deslocamento da centralidade do indivíduo em favor da perspectiva das classes sociais por Marx; o segundo seria a descoberta do inconsciente por Freud, que desconstrói o caráter inato da identidade do indivíduo; o terceiro “descentramento” está na lingüística estrutural de Saussure, que coloca o sujeito no interior de um sistema lingüístico e de significações que o precede; o quarto seria o “poder disciplinar” presente nas instituições sociais proposto por Foucault, que “individualiza” os sujeitos a partir de uma força externa e de caráter altamente condicionante sobre os corpos.

Sem adentrar agora nas correntes e categorias de pensamento acima enumeradas, mas que são de alta relevância para a concepção das “identidades culturais” nos estudos culturais contemporâneos, cabe-nos considerar o que Hall apresenta como o quinto “descentramento do sujeito”, resultante dos movimentos sociais de questionamento da tradição cultural ocidental, e promovido emblematicamente pelo “feminismo” em seus aspectos teóricos e enquanto movimento político e social:

[...] O feminismo faz parte daquele grupo de “novos movimentos sociais”, que emergiram durante os anos sessenta (o grande marco da modernidade tardia), juntamente com as revoltas estudantis, os movimentos juvenis contraculturais e antibelicistas, as lutas pelos direitos civis, os movimentos revolucionários do “Terceiro Mundo”, os movimentos pela paz e tudo aquilo que está associado com 1968 [...] (HALL, 2006, p. 44).

Ao se referenciar aos marcos do “descentramento do sujeito moderno”, Hall (2006) nos aponta não apenas as perspectivas teóricas que passam a orientar os estudos culturais em Birmingham – com reflexo na produção da história cultural a partir de então – como apresenta um cenário de como os movimentos sociais, políticos, raciais e de gênero ocorridos na década de 1960 colocam as “minorias” sociais e culturais em situação de destaque enquanto sujeitos dos processos históricos. A emergência dessas subjetividades coletivas até então invisibilizadas constituem também um indício da ampliação da produção historiográfica pela abordagem cultural nas décadas seguintes.



3 DO CULTURAL AO POPULAR: QUADRO CONCEITUAL

Leitura obrigatória para inserção na temática dos estudos culturais no Brasil, Cultura: um conceito antropológico traz – assim como a obra de Burke para a história cultural – uma rica aproximação com a antropologia cultural, suas diversas correntes e concepções a respeito da cultura, enquanto definição conceitual e objeto de estudos na prática do trabalho antropológico e das demais ciências humanas que se voltam para essa abordagem. Nessa obra Laraia (2001) apresenta, de maneira sucinta, a classificação elaborada por Roger Keesing que agrupa as diferentes correntes e abordagens da antropologia cultural em duas grandes linhas. Na linha Neo-evolucionista encontram-se as correntes evolucionistas, de influência das ciências biológicas, materialistas, marxistas e pós-marxistas, enquanto na linha denominada Idealista, encontram-se as correntes cognitivistas, estruturalistas e aquelas influenciadas pela perspectiva durkheimiana a respeito do simbólico. Tal esquema nos servirá, em linhas gerais, para identificar as diferentes referencias conceituais utilizadas por historiadores culturais.

Fizemos, nesse intento, a opção por quatro obras centrais na abordagem histórica cultural e daquilo que seus autores tratam por “cultura popular”, “cultura do homem comum” dentre outros termos para definir a cultura de grupos sociais não-hegemônicos: O queijo e os vermes do historiador italiano Carlo Ginzburg; Cultura popular na Idade Moderna do britânico Peter Burke; O grande massacre dos gatos do historiador estado-unidense Robert Darnton; Costumes em comum do também britânico E. P. Thompson. Por se tratarem de obras de grande relevância historiográfica, além do que, resultam de pesquisas em torno das culturas européias pré-industriais, não adentraremos naquilo que constitui o âmbito diegético dessas obras, detendo-nos apenas nas definições conceituais acima identificadas.

Em nossa observação à obra de Ginzburg, percebemos que o autor se refere à cultura comparando esta à linguagem. "[...] Assim como a língua, a cultura oferece ao indivíduo um horizonte de possibilidades latentes – uma jaula flexível e invisível dentro da qual se exercita a liberdade condicionada de cada um [...]" (2006, p. 20). Utilizando a alegoria da jaula/estrutura, sendo esta, no entanto, flexível, a cultura para Ginzburg constitui elemento condicionante da experiência, podendo oferecer um horizonte de “possibilidades latentes”, conquanto os sujeitos se apropriem dos elementos à sua disposição, o que explica a situação-caso de Menocchio, o moleiro friulano acusado de heresia pela Inquisição, que constitui objeto central em O queijo e os vermes:

[...] Em poucas palavras mesmo um caso-limite (e Menocchio com certeza o é) pode se revelar representativo, seja negativamente – porque ajuda a precisar o que se deva entender numa situação dada, por “estatisticamente mais freqüente” – seja positivamente – porque permite circunscrever as possibilidades latentes de algo (a cultura popular) que nos chega apenas através de documentos fragmentários e deformados, provenientes quase todos de “arquivos de repressão” (ibid, p. 21).

Ginzburg compreende a distância entre a cultura das classes dominantes e a cultura das classes subordinadas pelo viés dos desníveis culturais no interior das “chamadas sociedades civilizadas” (ibid., p. 12). Canclini (1983) observa que o conceito de desníveis culturais foi trazido aos estudos culturais pelo antropólogo italiano Alberto Cirese, quando este utilizou a teoria de classes do teórico marxista Antonio Gramsci na antropologia cultural. Ao considerar as contribuições de Cirese à antropologia cultural, com destaque à utilização do pensamento de Gramsci, Canclini desenvolve também uma crítica à categoria de desníveis culturais, alegando que

[...] Falar de níveis que estariam em diferentes alturas nos parece demasiado estático, tratando-se de um conceito pouco pertinente para dar conta das desigualdades e conflitos que inter-relacionam permanentemente as culturas populares com as culturas hegemônicas. Este vocabulário leva-o a designar como “processos de descida” e de “subida” o que as mensagens e produtos ao passar de um desnível a outro, o que - por mais advertência que se façam – conota uma hierarquização inaceitável (1983, p. 47 et seq).

Ginzburg (2006) questiona outros conceitos gramscianos, como o de “classes dominantes” e “classes subalternas”, no que toca à subordinação de uma classe a outra e à efetividade de “conteúdos alternativos” na lógica inversa, ou seja: até que ponto as classes subordinadas produzem subordinação às classes dominantes? E embora Ginzburg utilize o conceito de desníveis do modo hierarquizado, ao trazer a contribuição do teórico russo Mikhail Bakhtin por via do conceito de circularidade cultural, Ginzburg atribui dinâmica à forma como os diferentes níveis culturais se interrelacionam, identificando no discurso do moleiro Menocchio o resultado de “[...] um relacionamento circular feito de influências recíprocas, que se movia de baixo para cima, bem como de cima para baixo [...]” (2006, p. 10).

O historiador italiano opta pelo conceito de "cultura popular" – que no caso de Menocchio pode ser ainda mais especificado como "cultura camponesa" – frente ao conceito de "mentalidade" popular ou coletiva. Considera o termo "mentalidade", da forma como utilizado pelos historiadores das mentalidades, como composto de elementos inertes e generalizantes, operando com uma perspectiva de análise interclassista, enquanto o conceito de "cultura popular" lhe permite desenvolver uma análise classista, que constitui uma perspectiva de recorte preferível ao recorte interclassista. O autor ainda reitera a rejeição por generalizações em sua opção conceitual, utilizando o popular apenas como recorte de abordagem, identificado com uma visão de mundo cujas “[...] raízes de suas afirmações e desejos estão fincadas muito longe, num estrato obscuro, quase indecifrável, de remotas tradições camponesas” (ibid., p. 23).

Burke (1989), em seu prólogo à edição de 1978 de Cultura popular na Idade Moderna definiu o que seria esse elemento popular, também identificado como “artesãos e camponeses”, mas no qual se incluía todos os segmentos sociais que não constituíam as elites, como “[...] mulheres, crianças, pastores, marinheiros, mendigos e os demais grupos sociais [...]” (1989, p. 15). Burke também associou esses segmentos sociais ao conceito gramsciano de “classes subalternas”, identificando a cultura popular em seu recorte de abordagem, pelo que ele considerou como “negativas”: cultura não-oficial, cultura da não-elite. Naquele momento, Burke traz a seguinte definição de cultura: “[...] ‘um sistema de significados, atitudes e valores partilhados e as formas simbólicas (apresentações, objetos artesanais) em que eles são expressos ou encarnados’. A cultura nessa acepção faz parte de todo um modo de vida, mas não é idêntica a ele [...]” (ibid., loc. cit.). Todavia, no prefácio à edição brasileira de 1989 , o autor traz uma série de novos questionamentos e críticas ao conceito de cultura popular como utilizado anteriormente, às quais soma os questionamentos de outros autores levantados após a publicação da primeira edição da obra em 1978.

A primeira observação constitui uma espécie de recomendação na utilização de “culturas populares”, no plural, de forma a reduzir o caráter homogeneizante do termo singular “cultura popular”, ou mesmo a substituição por outra expressão, como “cultura das classes populares” utilizada por Ginzburg e Mandrou. Em seguida, retoma a importância de Bakhtin para a percepção das interações entre as “culturas do povo” e as “culturas da elite”, apontando a indefinição das fronteiras que separam uma e outra cultura e sugerindo aos novos pesquisadores a opção pelos estudos com foco nos processos de interação entre um e outro estrato cultural (BURKE, 1989, p. 20 et seq.).

Ao trazer as colaborações de William Christian e Roger Chartier ao debate conceitual, considera a substituição do binarismo elite – povo por outro viés de análise, que seria o de central – periférico, deslocando a perspectiva do popular para o local, proposto por Christian. Chartier (apud BURKE, 1989, p. 24), por sua vez, questiona o estudo do popular enquanto “distribuição específica de objetos culturais”, ou seja, a localização do popular enquanto identificação de grupos nos quais estão presentes objetos da cultura popular. A essa perspectiva que coloca o “objeto” em primeiro plano, o historiador francês propõe um redirecionamento das pesquisas, com o redirecionamento das abordagens para os “modos” como os conjuntos culturais são apropriados.

Em Darnton (1986) as referências conceituais estão mais difusas e, sobretudo, relacionadas de forma comparativa aos historiadores das mentalidades, uma vez que seu trabalho O grande massacre dos gatos adentra o campo da historiografia francesa ao tentar estabelecer uma “história etnográfica” do Antigo Regime. Para o historiador estado-unidense, a história cultural é tanto similar à história das mentalidades francesa, quanto, em sua maneira de operar em relação às “culturas exóticas”, ao fazer do antropólogo, conforme esclarece:

[...] Enquanto o historiador das idéias esboça a filiação do pensamento formal, de um filósofo para outro, o historiador etnográfico estuda a maneira como as pessoas comuns entendiam o mundo. Tenta descobrir sua cosmogonia, mostrar como organizavam a realidade em suas mentes e a expressavam em seu comportamento. Não tenta transformar em filósofo o homem comum, mas ver como a vida comum exige uma estratégia [...] (DARNTON, 1986, p. 14).

O que tratamos até agora por cultura popular, para Darnton se expressaria nas mentalidades e comportamentos do “homem comum”, dos camponeses, dos escritores e filósofos, ora laureados, ora marginais e também da burguesia ascendente, freqüentadora dos cafés e dos salões de festa. Darnton não faz a diferenciação “classista” entre cultura das elites e cultura popular presentes nas obras de Burke (1989) e Ginzburg (2006), mas, assim como estes historiadores, desenvolve uma relação de associação constante entre os conceitos de cultura, linguagem e significação, como expresso por Darnton:

[...] Cada qual à sua maneira entre tribos diferentes, habitualmente procuram ver as coisas do ponto de vista do nativo, para entender o que ele quer dizer e para procurar as dimensões sociais da significação. Trabalham a partir da crença de que os símbolos são partilhados, como o ar que respiramos ou, para adotar sua metáfora favorita, a língua que falamos (1986, p. 333).

Darnton destaca algumas contribuições teóricas importantes para a história das mentalidades e da cultura. A primeira é a ampliação da noção de temporalidade a partir de Braudel . Diferentemente da história política, que possui uma maior clareza em relação a marcos temporais, geralmente políticos e bélicos, uma abordagem sobre aspectos culturais deve estar atento a longas durações e manutenção de certas formas de pensamento, mesmo enquanto outros processos históricos e sociais ocorrem (DARNTON, 1986, p. 40). Atenta também à importância do senso comum enquanto "[...] elaboração social da realidade, que varia de cultura para cultura [...]" (ibid., p. 39).

Thompson, por sua vez, traz uma breve genealogia do conceito de cultura na modernidade européia. Tendo sido um dos primeiros historiadores na retomada da história cultural na década de 1960, a obra Costumes em comum, que data da década de 1990, constitui uma obra mais madura no campo da história cultural, na qual o autor inicia apontando a referência entre os termos costume, cultura e educação na Inglaterra do início da Idade Moderna. Thompson afirma que “nos séculos precedentes, o termo ‘costume’ foi empregado para denotar boa parte do que hoje está implicado na palavra ‘cultura’. O costume era a ‘segunda natureza’ do homem [...]” (1998, p. 14). Abordando o pensamento de Francis Bacon (século XVI) e de Mandeville (século XVII), o autor mostra como não havia uma diferenciação entre as ideias de costume e educação, todavia, torna-se explícito através do discurso desses pensadores que deveria haver um constume diferenciado para os “mais afortunados”, enquanto os trabalhadores, tanto mais felizes seriam quanto mais pobres e ignorantes fossem. Logo, “se a muitos desses ‘pobres’ se negava o acesso à educação, ao que mais eles podiam recorrer senão à transmissão oral, com sua pesada carga de ‘costumes’ [...]” (ibid., p. 15).

Além de tais referências, o autor apresenta uma associação do termo costume ao direito consuetudinário da Inglaterra pré-industrial, sendo compreendido como elemento legal e regulador das relações entre as pessoas e orientadoras dos direitos destas dentro das relações tradicionais vigentes. Relacionada à perceptível perda de validade na regulamentação das relações de trabalho que o costume sofre na passagem do século XVIII para o XIX está o afastamento entre as “culturas patrícias” e “culturas plebéias”. Desta forma, o autor propõe que

[...] Longe de exibir a permanência sugerida pela palavra “tradição”, o costume era um campo para a mudança e a disputa, uma arena na qual interesses opostos apresentavam reivindicações conflitantes. Essa é uma razão pela qual precisamos ter cuidado quanto a generalizações como “cultura popular”. Esta pode sugerir, numa inflexão antropológica influente no âmbito dos historiadores sociais, uma perspectiva ultraconsensual dessa cultura, entendida como “sistema de atitudes, valores e significados compartilhados, e as formas simbólicas (desempenhos e artefatos) em que se acham incorporados” . Mas uma cultura é também um conjunto de diferentes recursos, em que há sempre uma troca entre o escrito e o oral, o dominante e o subordinado, a aldeia e a metrópole; é uma arena de elementos conflitivos, que somente sob uma pressão imperiosa – por exemplo o nacionalismo, a consciência de classe, a ortodoxia religiosa predominante – assume a forma de um “sistema”. E na verdade o próprio termo “cultura”, com sua invocação confortável de um consenso, pode distrair nossa atenção das contradições sociais e culturais, das fraturas e oposições existentes dentro do conjunto (THOMPSON, 1998, p. 16).

Thompson (1998), portanto, põe sob alerta não somente o termo “cultura popular”, como também o conceito de cultura apresentado por Burke (1989) e Darnton (1986) – ambos influenciados pelo “sistema de formas simbólicas” de Geertz, como explicitado por Burke (2005, p.52) – chegando à critica do próprio conceito de cultura em suas características generalizantes e consensuais na abordagem da pesquisa historiográfica. No entanto, mais do que eliminar as possibilidades de uso dos conceitos de cultura e cultura popular, Thompson os problematiza e propõe seu redimensionamento frente a uma rigorosa contextualização histórica. A exemplo dos termos por ele utilizado – “cultura patrícia” e “cultura plebéia” – atenta às características ambíguas e aparentemente contraditórias presentes em cada um e a possibilidade de crítica à qual as categorias por ele adotadas também estão sujeitas. Por fim, propõe o uso destes termos de forma mais vaga e descritiva do que como condicionante de análise, observando que

[...] Afinal de contas, há outros termos descritivos que são moeda comum, tais como “sociedade”, “política” e “economia”. Não há dúvida de que eles merecem um escrutínio minucioso de tempos em tempos, mas se tivéssemos que fazer um exercício rigoroso de definição cada vez que quiséssemos usá-los, o discurso do conhecimento se tornaria bastante complicado (THOMPSON, 1998, p. 22).

Uma importante referência que Thompson (1998) traz para o desenvolvimento de uma crítica ao uso de forma generalizante de um determinado recorte cultural vem de Gramsci, sobretudo em sua identificação da multiplicidade de consciências e moralidades nos indivíduos e, conseqüentemente, nas identidades coletivas. No que toca às moralidades, Gramsci identifica em cada sujeito uma “moralidade popular” e uma “moralidade oficial”. Enquanto a última é resultante das regras vigentes às quais os indivíduos estão submetidos, a primeira vincula-se às “tradições folclóricas” herdadas do passado. Outro elemento da teoria de Gramsci discutida por Thompson é a “filosofia espontânea” dos sujeitos. Esta filosofia teria três origens: na linguagem, oriunda das noções, concepções e conceitos inerentes ao uso lingüístico; no senso comum, por via da construção do conhecimento pela práxis e pela troca de experiências com outros sujeitos nos diversos espaços da vida social, trabalho etc.; a terceira origem estaria no conhecimento folclórico e religioso popular. Essa “filosofia espontânea” consistiria em uma construção individual, mas também coletiva, que se vincula estreitamente a duas “consciências teóricas” que cada sujeito possui: uma vinculada ao saber herdado tradicionalmente e outra à experiência geradora do senso comum. Thompson traduz essas “consciências” como dois aspectos de uma mesma realidade: a “conformidade com o status quo” e a “experiência da exploração” compartilhada socialmente e consolidada no senso comum, da qual se originam as críticas aos elementos exploradores oriundos das “classes empregadoras” (1998, p. 20).



4 CANCLINI: QUANDO O CULTURAL TAMBÉM É O POLÍTICO

Em As culturas populares no capitalismo , o antropólogo argentino Nestor Garcia Canclini traz a contribuição do pensamento latino-americano à abordagem cultural, apresentando com clareza suas referências teóricas vinculadas ao pensamento marxista, tendo em Gramsci e Bourdieu seus principais interlocutores. Critico das correntes funcionalistas (Malinowski; Radcliffe-Brown; Evans-Pritchard), estruturalistas (Lévi-Strauss) e do culturalismo norte-americano (Ruth Benedict; Herskovits), por não colaborarem na construção um saber “universal” que não imponha os padrões de uma cultura a todas as demais, ou caiam em um completo relativismo, o autor afirma que

[...] a omnideterminação sincrônica da estrutura não está muito longe da teoria do consenso e da interdependência harmônica das funções nas outras duas teorias. As três deste modo tornam-se incapazes de pensar as transformações e os conflitos. O pensamento liberal joga o xadrez com peças distintas e mediante estratégias variadas, mas as ordena engenhosamente de modo que o funcionalismo, o culturalismo e o estruturalismo sejam somados ao final, “visando a formação de uma combinação favorável” (CANCLINI, 1983, p. 25).


Canclini (1983) propõe que ao fazer apologia a um pensamento de igualdade entre culturas e ao “criar a ilusão” de que todos podem usufruir da cultura dominante, o pensamento moderno desarticula qualquer tentativa de desenvolvimento autônomo das culturas populares, reorganizando-as em função da lógica capitalista, o que explica a espetacularização de ritos e tradições indígenas e populares, rurais ou urbanas, que convertem os objetos produzidos pelas culturas populares em mercadorias, desprovidas de outros sentidos que não o do consumo. Frente ao problema da “corrosão” das culturas populares, o autor expande a problemática questionando o futuro de “todas as culturas”, no que diz respeito às imagens, valores e sistemas de pensamentos.

No plano conceitual, o antropólogo utiliza o termo cultura para definir

[...] a produção de fenômenos que contribuem, mediante a representação ou reelaboração simbólica das estruturas materiais, para a compreensão, reprodução ou transformação do sistema social, ou seja, a cultura diz respeito a todas as práticas e instituições dedicadas à administração, renovação e reestruturação do sentido" (CANCLINI, 1983, p. 29).

Para Canclini (1983) toda “produção de sentido” está inserido em estruturas e condições materiais, sendo assim, afirma a indissolubilidade entre os elementos ideais e a materialidade, que, enquanto categorias de pensamento, podem ser isolados para melhor compreensão, mas que, todavia, não constituem elementos dissociados na realidade social. Propõe também que as culturas não são mera representação da produção e reprodução da vida em sua materialidade, mas que toda produção de materialidade está carregada de sentido cultural, assim como toda produção cultural encontram sentido na materialidade social que a produziu. Nesse sentido, as culturas populares estariam mais próximas dessa possibilidade de constatação, uma vez que seu cotidiano está quase todo imerso no trabalho material.

Embora o autor utilize ora o termo de “culturas subalternas”, ora “culturas tradicionais” ou “orais” para diferenciar as culturas camponesas-artesãs que constituem seu objeto de estudo das outras culturas, ocidentalizadas, identificadas pelo autor como “modernas”, estes termos expressam aspectos do que seriam as culturas populares, propondo por sua definição que

As culturas populares (termo que achamos mais adequado do que a cultura popular) se constituem por um processo de apropriação desigual dos bens econômicos e culturais de uma nação ou etnia por parte de seus setores subalternos, e pela compreensão, reprodução e transformação, real e simbólica, das condições gerais e específicas do trabalho e da vida (ibid., p. 42, grifo do autor).

Identifica que tais culturas são constituídas por dois espaços: o primeiro espaço corresponde ao das práticas profissionais, familiares, comunicacionais e outras vinculadas à organização da vida no sistema capitalista; o segundo espaço está nas “práticas e formas de pensamento” vinculadas à concepção e expressão da realidade e de seu lugar social. O autor observa que o popular reside mais como “posição” e “prática” dos sujeitos que na produção de objetos que possam ser considerados oriundos da “cultura popular” e, no que diz respeito ao caráter de transformação das culturas, afirma:

[...] Nenhum objeto tem o seu caráter popular garantido para sempre porque foi produzido pelo povo ou porque este o consome com avidez; o sentido e o valor populares vão sendo conquistados nas relações sociais. É o uso e não a origem, a posição e a capacidade de suscitar práticas ou representações populares, que confere essa identidade (CANCLINI, 1983, p. 135).

O caráter orgânico do pensamento do antropólogo argentino acompanha toda a sua construção teórica e seus estudos das manifestações culturais das comunidades camponesas-artesãs indígenas de Michoacán, no entanto, emerge de forma mais evidente em seus apontamentos sobre as políticas voltadas para as culturas populares. Canclini (1983) evidencia as incalculáveis perdas culturais dessas comunidades no que diz respeito à desestruturação da organização familiar do trabalho e da propriedade comunal das terras, além do desaparecimento de diversos “suportes identitários” no processo de inserção econômica dessas comunidades no sistema capitalista. Acusa ainda o alheamento dessas comunidades aos recursos educacionais necessários para a compreensão do sistema econômico e das novas relações sociais e trabalhistas nas quais estão sendo inseridos.

Posicionando-se em favor de políticas culturais populares que coloquem os sujeitos das culturas populares nos centros das tomadas de decisão, Canclini observa ainda em relação às políticas culturais que

[...] As tarefas necessárias excedem a um simples 'resgate' das estruturas coletivas e das tradições indígenas ou a um tíbio respeito à autonomia étnica ou mesmo ao desenvolvimento de cooperativas ou de lutas locais. [...] Isto significa que os grupos étnicos, a partir de uma adequada caracterização da sua dominação, devem atribuir um sentido anticapitalista (e não simplesmente anticolonialista) a suas lutas e que os partidos políticos e os movimentos sindicais deve reconhecer na opressão étnica e nos conflitos culturais o seu caráter de problema específico, caráter que frequentemente é descuidado (1983, p. 143).

A atenção ao caráter político – que também é econômico e social – das culturas populares conforme levantado pelo autor, aponta para as afirmações identitárias enquanto elementos de transformadores de sentido e coesão social, que resulte posicionamento frente aos “conflitos de classes” e às condições de exploração na qual esses grupos vivem. A simples conservação dos objetos, organização social e formas estéticas destituídas de sentido, onde supostamente estaria arraigada a “identidade étnica” de um grupo, para Canclini, é um erro de “distorção que caracteriza os folcloristas conservadores” (ibid., p. 79).



5 CONSIDERAÇÕES FINAIS


Longe de desenvolvermos qualquer conclusão definitiva em relação aos conceitos, usos e perspectivas teóricas da abordagem cultural, seja na historiografia acadêmica, seja no ensino de História, reiteramos nosso objetivo inicial de desenvolver um breve debate conceitual entre autores que, dialogando entre si e no desenvolvimento do fazer historiográfico, contribuíram para a ampliação do conceito de cultura e também dos questionamentos em torno de sua utilização. Alguns desses questionamentos não devem ser perdidos de vista.

Voltando à temática dos conteúdos de história e culturas afro-brasileiras, africanas e indígenas, podemos retomar como exemplo, o questionamento da “generalização” que o conceito de cultura e seus termos resultantes dos seus desdobramentos de abordagem – culturas orais, culturas tradicionais, culturas populares, dentre outros – trazem em si. Nesse caso, ficam outros questionamentos, que seriam: essa generalização é prejudicial ao estudo das culturas em sua abordagem escolar? É possível evitar tais generalizações? Sob quais perspectivas o conceito generalizante pode servir ao estudo das culturas no contexto escolar?

Muitos outros questionamentos podem – e devem – ser levantados, em relação às perspectivas de igualdades/diferenças entre culturas; à abordagem com foco nas particularidades de cada uma ou nos processos limítrofes de interação entre culturas; à abordagem com foco nos “objetos culturais” em si ou nos sentidos de apropriação e transformação desses “objetos culturais” e assim por diante. Muitas questões também dizem respeito às perspectivas teóricas e metodológicas, que podemos ampliar para as opções didáticas envolvidas na construção do saber histórico na sala de aula e fora dela.

Muitas pesquisas têm sido desenvolvidas a respeito dessa e de outras temáticas que envolvem o ensino de História no contexto da educação para as relações étnicorraciais e visando uma cada vez mais a democratização dos currículos escolares. A inserção nos debates teóricos e conceituais é apenas uma das possibilidades de ampliar conhecimentos e práticas.


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