segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Teorias fundacionais do método científico moderno: O Novum Organum (1620) de Francis Bacon e o Discurso do Método (1637) de René Descartes

Resenha crítica produzida no contexto da disciplina Metodologia da Pesquisa I oferecida pelo Prof. Dr. Franklin Noel dos Santos ao Programa de Pós Graduação em Ensino na Educação Básica do Centro Universitário Norte do Espírito Santo da Universidade Federal do Espírito Santo. As referências carecem de revisão para se adequarem à normalização estabelecida pela ABNT.

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A produção dos saberes científicos realizados pelas diversas disciplinas acadêmicas diferem dos demais saberes produzidos socialmente devido à presença de alguns critérios em seu processo de produção que lhe garantem um caráter objetivo. Tal característica está relacionada à possibilidade de comprovação empírica do saber que se enuncia em relação a um determinado objeto, assim como à aplicabilidade desse saber para além de um fato isolado e às críticas teóricas e metodológicas frente a outros conhecimentos construídos, igualmente a partir dos princípios de objetividade científica. Tais elementos na avaliação das ciências modernas e da produção do saberes científicos são, na atualidade, alvo de inúmeras críticas e controvérsias quanto à sua natureza, critérios envolvidos e objetivos finais, sobretudo por parte dos filósofos das ciências. As diferenças de opinião a respeito do método e dos objetivos das ciências remontam ao próprio momento de estruturação do fazer científico na modernidade europeia nas primeiras décadas do século XVII.

As obras Novum Organum, de Francis Bacon, e Discurso do Método, de René Descartes lançam não apenas as bases metodológicas que direcionam a produção científica em todas as áreas do conhecimento, como também inauguram o debate sobre o fazer científico na modernidade, debate esse que nos acompanha até a contemporaneidade. A relevância de tais obras impõe a nós, enquanto docentes e pesquisadores acadêmicos, a necessidade de compreender os diversos elementos que constituem a produção científica ocidental, e global, após o advento da revolução científica moderna ocorrida no continente Europeu durante o século XVII e da qual nos constituímos signatários, críticos e continuadores. Inserido nessa condição e enquanto historiador e pesquisador do ensino na educação básica no Brasil, desenvolverei a seguir a resenha das obras acima citadas, expondo suas principais características e em seguida relacionando os marcos teóricos inaugurados por Bacon e Descartes com o fazer historiográfico e das chamadas Ciências Humanas na contemporaneidade.

Francis Bacon, político e teórico britânico, apresenta em seu Novum Organum as bases teóricas e os princípios do método indutivo empirista nas ciências modernas. Publicado em 1620, a obra de Bacon constitui um tratado dividido em dois livros e composto por aforismos. O primeiro livro é voltado para a relação homem-natureza e apresenta as bases de sua filosofia das ciências, assim como os princípios que fundamentam e orientam o seu método. Tece críticas às limitações da filosofia clássica, à lógica aristotélica cultivada nas universidades medievais e ao fazer "científico" equivocado desenvolvido pelos alquimistas e místicos empiristas. Identifica as limitações humanas no desenvolvimento das ciências e no conhecimento da verdade nomeando-as de "ídolos" e agrupando-as em diferentes tipos, de acordo com sua origem no processo de construção dos saberes. No segundo livro, o autor adentra no método por ele desenvolvido apresentado seus rudimentos metodológicos, simulando investigações empíricas e expondo alguns elementos que constituem sua leitura metafísica da realidade.

No que diz respeito à crítica às ciências de sua época, as quais denomina "antecipações da mente", Bacon considera que o fazer científico não deve ser embasado na lógica e na racionalidade humana, pois estas estão sujeitas às imperfeições do intelecto e dos sentidos. Considerando o pequeno avanço nas descobertas científicas feitas até então, identifica limitações que impedem a mente humana de atingir o "conhecimento verdadeiro", assim observa a necessidade de um novo método, que funcione ao intelecto como as ferramentas servem ao fazer manual, ou seja, intermediando e potencializando a capacidade produtiva humana frente a uma natureza que em tudo é mais complexa. Dentre as limitações, as falsas noções e concepções da mente humana na busca desse saber verdadeiro o autor identifica os que tem origem na "natureza humana", que faz com que as buscas e os sentidos da mente digam mais a respeito dessa natureza do que da "natureza do universo". Essas limitações são denominadas Ídolos da tribo e se relacionam, sobretudo, às limitações dos sentidos e do intelecto humano na interpretação da realidade.

Seguem-se mais três tipos: os Ídolos da Caverna que são oriundos da subjetividade dos indivíduos criada a partir das diferentes trajetórias de vida, formação e condição perante a construção do conhecimento. Relaciono este ídolo às críticas do autor à racionalidade dos sujeitos e, portanto, constitui-se no principal ponto de oposição entre o método baconiano e o método dedutivo racionalista desenvolvido por Descartes, que será apresentado posteriormente. As outras duas fontes de limitações são os chamados Ídolos de Foro e Ídolos do Teatro. Os primeiros estão vinculados às convenções que os homens estabelecem ao relacionarem-se entre si, já os segundos dizem respeito das diferentes doutrinas e filosofias adotadas pelos homens e que se consolidam como ficcionalidades que impedem o acesso ao "conhecimento verdadeiro". Essas categorias amparam tanto às críticas que autor faz à problemática dos conceitos, que podem ser mal cunhados e tornar confusas a compreensão das coisas como são, quanto às doutrinas chamadas de "racionais e dogmáticas".

O método que Bacon desenvolve para corrigir os erros e impedimentos causados pelos ídolos reside na indução por exclusão, que consiste no desenvolvimento de um sistema de experimentos levados a cabo para apreender os elementos que compõem a natureza de um determinado elemento ou fenômeno. Organizadas e sistematizadas, as informações são confrontadas com instâncias opostas, desvios de ocorrência, graus específicos e comparativos de ocorrência e assim, as exclusões de constatações e possibilidades insustentáveis, que segundo o autor, seriam fontes de erros e interpretações equivocadas. Além das diversas técnicas empíricas existentes na época e outras desenvolvidas para avaliar fenômenos físicos e químicos, Bacon desenvolve, como recurso metodológico, tabelas que serviriam à sistematização desses saberes, cada qual com um objetivo específico e de grande utilidade funcional no processo de investigação científica. A natureza deve ser interpretada pelo experimento e então, o experimento ser interpretado pelo homem. A partir desses processos e com bastante rigor poderiam ser formulados os axiomas mais específicos e locais, que dariam fundamentação ao desenvolvimento de axiomas intermediários e desses se formulariam os gerais e os generalíssimos, todavia, partindo sempre da apreensão das coisas mais simples para as mais complexas.

Bacon, destaca a importância da experiência literata, ou seja, seu registro por escrito e enunciação, passível de ser utilizada por outros cientistas. Propõe a formação de uma sociedade científica, na qual muitos indivíduos desenvolveriam trabalhos específicos individualmente, mas em consonância com um fazer científico coletivo em torno de um método bem fundamentado. Vislumbra a possibilidade de grandes realizações a partir da manipulação da matéria com base no pleno conhecimento de sua natureza e explicita uma teoria do conhecimento que justifica seu método. A teoria do conhecimento de Bacon deriva da metafísica aristotélica que afirma a existência de uma essência, que seria a coisa em si, e uma aparência composta pelas contingências físicas que formam os corpos, ou seja, sua materialidade. Em Bacon, a essência é traduzida por forma, sendo essa conhecida objetiva e afirmativamente apenas por Deus, criador das formas. A aparência aqui é traduzida por natureza, esta constituída pela materialidade e apreendida pelo conhecimento de suas características físicas (tamanho, peso, densidade, cor, temperatura, composição etc). Sendo assim, ao homem seria possível conhecer a natureza das coisas pela via empírica e sua forma, somente pelo processo de exclusões, pelo qual se chegaria ao conhecimento da coisa em si por uma via negativa, reflexo da imperfeição humana.

Ademais da descrição detalhada de aplicação do método por via das tábuas, da identificação das instâncias e da interpretação para o enunciado de suas constatações, o Novum Organum revela fortemente o caráter religioso com o qual a ciência moderna ocidental foi idealizada, não atrelada ou submissa à teologia, mas dotada de duas funções sacramentais: revelar a verdade divina ao homem pelo conhecimento de sua criação – possível pela história natural – e redimi-lo da maldição advinda com o pecado original voltando a dominar a terra e sujeitá-la pela via do conhecimento científico. A filosofia do método científico de René Descartes também compartilha da ideia de progresso e melhoria da condição humana pela via científica, de igual forma não adentrando o campo teológico, mas buscando a verdade na obra divina através do conhecimento científico. Para o autor do Discurso do Método (1637), a matemática seria a única ciência a ter se aproximado com exatidão dessa verdade, sendo então considerado que a escrita divina é feita em caracteres matemáticos.

O pensamento cartesiano é apresentado no Discurso do Método na forma de uma confissão, dividida em seis partes, que muito pouco adentra na aplicação prática de seu caminho científico, exceto no momento em que expõe sua construção metafísica do sujeito e sua filosofia do conhecimento. Nesta obra, Descartes apresenta de forma autobiográfica o processo de construção do seu método dedutivo racionalista, tece críticas às ciências de sua época e à filosofia então praticada nas universidades, apoiada na lógica aristotélica. Defende o pragmatismo em seus valores éticos e morais e apresenta de maneira esparsa alguns condicionantes à enunciação de novas teorias científicas em sua época, em alguns momentos elevando os saberes práticos, o contato com diferentes culturas através das viagens por ele realizadas e as invenções desenvolvidas por homens sem instrução como de maior valor aos saberes acadêmicos, confusos e de pouca aplicabilidade, cultivado nas universidades europeias.

Para Descartes o labor intelectual é tanto mais profícuo quanto for de natureza reflexiva, voltada para o auto-conhecimento e apoiado na razão e no bom senso. A base de seu método está no questionamento de todas as verdades estabelecidas, seja para sua substituição, seja para sua confirmação posterior após submetida à critica. Com o ápice de sua desconfiança sistemática, chega-se ao principal fundamento de seu pensamento filosófico, enunciado da seguinte maneira: se quero pensar que tudo é falso, logo, eu pensante sou alguma coisa, portanto "eu penso, logo, existo". Seguindo essa máxima, o autor desenvolve tanto sua filosofia do conhecimento quanto sua metafísica dualista, na qual a alma, fonte do pensar e, portanto, da existência, precede a matéria e dela é independente, todavia, enquanto ser composto por alma e corpo material, sendo essa dependência entre naturezas distintas um sinônimo de imperfeição, há necessariamente um ser perfeito, composto de uma só natureza do qual toda existência e inteligência imperfeita dependa da sua existência e inteligência perfeita para existir. Esse ser perfeito, para o autor, seria a divindade da tradição cristã: onisciente, onipresente e onipotente.

Descartes elegeu alguns princípio para o desenvolvimento de seu método, estes seriam, além da desconfiança sistemática anteriormente citada, a segmentação das problemáticas em etapas, de forma que a resolução das partes levasse à resolução do todo, além de tomar por princípio a condução de sua investigação sempre pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, sucedendo ao conhecimento dos objetos mais compostos até os mais complexos e gerais. Propoz também, assim como Bacon, a prática de proceder a relações metódicas complexas e revisões gerais em todo o processo, de forma efetuar todas possíveis correções e não deixar escapar nenhum elemento. Assim sendo, o método dedutivo cartesiano, busca, partindo da premissa da racionalidade dotada divinamente, as causas a partir dos efeitos em um processo longo de rigorosa aplicação teórica e desenvolvimento das etapas do método até a obtenção dos resultados comprovados e comprováveis.

Embora Bacon e Descartes sejam representantes de correntes de pensamento divergentes, as ciências modernas foram desenvolvidas, sobretudo, pela utilização complementar dos métodos indutivo e dedutivo. Cabe ressaltar que, embora seus métodos sejam apresentados como resultado de um labor individualmente desenvolvido e como fruto de um trabalho isolado, ambos participam de um mesmo momento, que é o surgimento da modernidade europeia, sendo contemporâneos de outras inteligências que davam igual fluxo ao desenvolvimento de um novo posicionamento frente à produção do conhecimento, como o italiano Galileu Galilei e Giordano Bruno, e sendo também antecedidos por outras inteligências fundamentais para um posicionamento mais crítico quanto à filosofia e à inserção da teologia e de pressupostos equivocados no pensamento científico e filosófico europeu, como São Tomás de Aquino, Leonardo Da Vinci e Erasmo de Roterdã, dentre outros. Note-se que o termo "homem", utilizado por Bacon – e que será utilizado também por Descartes –, é um constitutivo da perspectiva moderna de sociedade, poder e saber, gestada nos movimentos identificados como Renascimento e Humanismo, vivenciados pela cristandade européia nos séculos XV e XVI. Ambos movimentos de cunho artístico, científico e filosófico que projetam na figura do homem, masculino, europeu, cristão a potencialidade de emancipação do gênero humano baseado na racionalidade, assim como no ideal teleológico de salvação e no comportamento e moral guiados pela religiosidade cristã.

No método baconiano, percebe-se grande influência do conhecimento herdeiro da história natural aristotélica, do empirismo dos alquimistas e adoção, em um primeiro momento de saberes originários do senso comum medieval tão veementemente criticados e rechaçados pelo teórico. Assim como nota-se a influência do dualismo no neoplatonismo racionalista no pensamento cartesiano. Percebe-se sobretudo, no pensamento de ambos autores a intencionalidade na construção de um método científico que refletisse a modernidade europeia, ocidental, cristã em sua perspectiva histórica linear e redentiva, inserida no contexto do colonialismo e da superioridade científica dos povos europeus frente às ciências e filosofia clássicas e orientais, até então dominantes.

No debate entre os métodos baconiano e cartesiano, percebe-se que ambos propõe a investigação partindo dos objetos mais simples, progressivamente alcançando os mais complexos e por fim as generalidades. A segmentação da investigação em etapas sistematizadas e verificadas também foi uma contribuição dos dois teóricos à constituição das ciências modernas. Os dois métodos são apresentados pelos autores como de fácil compreensão e difícil aplicabilidade, mas que uma vez dominados teriam usos mais gerais e permitiriam grande avanço das ciências e do conhecimento humano.

A predileção de Bacon pela história natural e de Descartes pela matemática justificam particularidades inerentes aos respectivos métodos em relação ao objeto, ainda que o objeto estudado seja o mesmo, como no caso da investigação a respeito do "calor", apresentado por ambos. Ao voltar-se para a experiência como objeto de interpretação da natureza, Bacon critica a racionalidade individual, exaltada por Descartes, como sendo um Ídolo da Caverna, ou seja, agente promotor de impedimentos ao conhecimento da realidade devido à imperfeição e limitações dos sentidos e da mente humana. Tal fator de conflito reflete a deferente perspectiva dos teóricos a respeito da racionalidade. Enquanto para Bacon, esta não pode ser considerada sem os vícios dos sentidos e das experiências de vida do sujeito, para Descartes a racionalidade pressupõe o sujeito em sua materialidade, sendo o laço humano com a verdade divina apriorística. Tais especificidades teóricas resultam em maior funcionalismo do método cartesiano nas ciências formais, exatas, e no que toca às formulações teóricas das ciências naturais, humanas e sociais, enquanto o empirismo baconiano encontra mais eco no desenvolvimento metodológico destas ciências e imprescindibilidade no desenvolvimento das ciências humanas e sociais aplicadas, dialogando com às chamadas ciências duras no que toca às metodologias empiristas da pesquisa científica.

Conquanto os métodos indutivo empirista e dedutivo racionalista seguem como premissas à produção do conhecimento científico e acadêmico em seus diversos desdobramentos resultantes do próprio processo de desenvolvimento das disciplinas e áreas do saber na modernidade, tais métodos e seus princípios teóricos sofrem diversas críticas, sobretudo por parte das ciências humanas e sociais e por parte da filosofia das ciências. Tanto a racionalidade quanto a objetividade empírica mostraram-se equivocadas ao ignorar a construção social do conhecimento, ao falso isolacionismo com relação a outras formas de construção de conhecimento e à ilusão de objetividade no processo de produção do conhecimento científico, hoje vista como impossível a partir do momento que a escolha do objeto, o condicionamento e desenvolvimento da experiência, a formulação teórica e a seleção de resultados que leva à enunciação de um "novo conhecimento" são processos de ativa intervenção e criação humana. A racionalidade cartesiana perpetuada pela leitura de um universo planificável e compreensível pela lógica matemática sofre fortes críticas sobretudo com as descobertas de Einstein sobre a relatividade da matéria e no que toca à física e astronomia quântica.

Longe de esgotar o debate, encontramos as ciências na atualidade imersa em um grande número de reflexões e oposições internas e externas cuja problemática central, a meu ver e no que toca às críticas das chamadas humanidades ao desenvolvimento científico e à ética das ciências, reside no fato de que enquanto conhecimento humanamente produzido, o saber e o avanço científico devem ter como eixo central o desenvolvimento, saúde e bem viver humanos frente a qualquer interesse econômico e de Estado aos quais o conhecimento e a "verdade" científica sempre serviram.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BACON, Francis. Novum Organum. Tradução de José Aluysio Reis de Andrade. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

DESCARTES, René. Discurso do Método. Tradução de Enrico Corvisieri. São Paulo, SP: Editora Escala, 2006.

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